A discussão das deputadas Ana Caroline Campagnolo e Julia Zanatta em live no Instagram, na última sexta-feira (7), reforçou o protagonismo do governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, na tentativa de implosão da candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado. Apesar de conseguir sair ileso da briga generalizada entre parlamentares e a família do ex-presidente, ele é a parte mais interessada na polêmica.
Um dia depois da briga, que virou meme e teve ampla repercussão nas redes, Ana foi apoiada pelo governador em evento público do PL, o rota 22. “Moça que orgulha o parlamento de Santa Catarina”, disse, diante de uma plateia em Blumenau. Jorginho é alvo de críticas públicas de Zanatta pelas alianças políticas que sustentam a sua governabilidade em Santa Catarina. Hoje, só partidos de esquerda não participam da gestão estadual.
Na live, as deputadas racharam, em looping, sobre qual deveria ser a estratégia do partido para 2026. Julia Zanatta cobrou Ana sobre o porquê de Caroline de Toni não expor seu desejo de “chapa pura”. Também disse que ambas poderiam ter brigado, junto com ela, para que só o PL tivesse candidaturas ao senado na chapa do governador.
Ao fazer elogios públicos à Campagnolo, Jorginho Mello mostra seu lado na briga. Isso porque é ele quem vai definir o destino da vaga número 2 da candidatura do Senado e já está certo que ela não será do PL.
Ana tem se esforçado em explicar essa estratégia para a militância em entrevistas a veículos conservadores, blindando o governador de críticas. Júlia sempre se posicionou a favor de “chapa pura”, atiçando a militância mais radical contra a escolha de Jorginho.
Se não acolher a candidatura de Esperidião Amin, do Progressistas, Jorginho joga a Federação União Progressista no colo do único rival declarado que ele ainda tem, o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, do PSD. Com isso, abre mão de tempo de TV e de dinheiro do fundo eleitoral. Além disso, seu palanque perde um político conhecido pela experiência e com forte interlocução com a elite empresarial.
Um dia após a cruzada de Ana Campagnolo contra Carlos Bolsonaro ganhar dimensão nacional, o grupo de comunicação afiliado da RIC Record lançou editoriais e matérias em tom crítico ao filho do ex-presidente. Foi como jogar gasolina no incêndio, mas a tática é calculada: o grupo é um dos que mais recebe mídia paga da gestão Jorginho e nunca adotou tom crítico às suas decisões.
Com uma parlamentar forte no Estado em campanha contra Carlos e com um grupo de comunicação produzindo dossiê sobre ele, o filho do ex-presidente só não viu Jorginho Mello se manifestar. Mas a essa altura, nem precisava.
“Consórcio da Paz”
Político de natureza fisiologista, Jorginho Mello continua sustentando o bolsonarismo no discurso, mas, na prática, faz movimentos calculados para ter mais independência do núcleo de Jair Bolsonaro.
Ao se articular com o grupo de presidenciáveis de direita no auto-denominado “Consórcio da Paz”, busca alianças com Tarcísio de Freitas, Ratinho Junior, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Todos eles querem a herança de Bolsonaro nos grupos conservadores. O Consórcio foi criado dois dias após chacina no Rio de Janeiro, mas ainda não teve nenhuma repercussão formal.
Paralelamente, Jorginho tenta isolar Carlos Bolsonaro por ter chegado à pré-campanha atrapalhando a construção de suas alianças. Desde que a polêmica começou, chovem críticas, à direita, para todos os personagens da história, exceto para um, que vê um caminho fácil para a reeleição e assiste tudo de camarote: o próprio governador.
Barraco extra
Outra repercussão da briga das deputadas anti-feministas e radicais de Santa Catarina foi o fato de Júlia Zanatta ter dito aos seus seguidores que tomou “unfollow” de Campagnolo antes mesmo de a confusão começar. Segundo Zanatta, a deputada estadual mais votada de Santa Catarina deixou de segui-la nas redes porque o marido de Zanatta será candidato à Assembleia Legislativa.
Como ambos vão disputar o mesmo cargo, Campagnolo teria se afastado de Zanatta, que tem levado o marido em todas as suas agendas. Hoje comissionado do governo Jorginho Mello, Guilherme Colombo disputaria votos no núcleo olavista radical do qual Campagnolo também faz parte. Além disso, sua presença na eleição também elimina a chance dos “santinhos” casados entre as parlamentares.
Julia Zanatta, que estava até então apática na briga generalizada da direita catarinense por conta da vinda de Carlos Bolsonaro, decidiu abrir sua artilharia no dia em que revelamos, aqui, que uma emenda parlamentar dela está sob escrutínio dos órgãos de controle após parar nos cofres do clube de tiro de um amigo.




