A IA não vai roubar seu emprego

A IA não vai roubar seu emprego
Publicado em 06/06/2026 às 9:26

Sam Altman admitiu que errou. O CEO da OpenAI, que passou anos vendendo a narrativa de uma revolução iminente no mercado de trabalho, disse numa conferência do Commonwealth Bank of Australia que a substituição de empregos de escritório está acontecendo muito mais devagar do que ele esperava quando lançou o ChatGPT.

O exemplo que ele usou para explicar a virada foi constrangedor. Contou como criou uma IA que respondia seus e-mails se identificando como “a IA do Sam” e teve que voltar a responder pessoalmente porque as pessoas não gostaram (que surpresa…). É uma conclusão reveladora para quem construiu uma empresa inteira em cima da ideia oposta.

Na mesma semana, David Solomon, CEO do Goldman Sachs, publicou um artigo no New York Times defendendo que a IA reorganiza o mercado de trabalho, não o destrói. Economistas do banco estimam automação de cerca de 25% das horas de trabalho na próxima década, bem diferente de uma automação total das profissões. Um estudo de Stanford citado no texto mostra que empregos de entrada em áreas altamente automatizáveis já caíram 16% em relação às menos afetadas, mas a expansão dos data centers criou mais de 200 mil vagas na construção civil desde 2022.

James Manyika, vice-presidente do Google, reforça esse argumento dizendo que menos de 10% das ocupações têm mais de 90% de suas atividades passíveis de automação. O emprego, ele explica, é uma combinação complexa de tarefas. Basta uma parte importante continuar exigindo presença humana para travar a automação completa da função.

O analista Benedict Evans vai na mesma direção e lembra que a contabilidade sobreviveu a mais de um século de automação, de calculadoras, planilhas, com o número de contadores só crescendo. O que muda é o trabalho, não necessariamente quem o faz. Analisei esses artigos com mais profundidade no episódio #366 do podcast RESUMIDO .

O COO da Uber, Andrew Macdonald, disse estar com dificuldade para justificar internamente os gastos crescentes com IA. Ele já tinha revelado que esgotaram o orçamento anual de 2026 Claude Code em apenas alguns meses no primeiro semestre. Consumir mais tokens não está se traduzindo em mais produto, mais funcionalidade ou mais valor para o usuário. A Starbucks encerrou um projeto de IA para controle de estoque depois de erros recorrentes de contagem que geraram prejuízo, a. Microsoft também está diminuindo o número de licenças do Claude Code para seus desenvolvedores.

O que isso tudo revela não é que a IA seja irrelevante e sim que discurso de transformação imediata e total sempre serviu mais para essas empresas se valorizarem e captarem mais investimento do que para descrever a realidade.

A questão não é se a IA vai mudar o trabalho, porque vai. É como nós humanos vamos nos reorganizar em torno do que não for absorvido.