As diferentes tarifas criadas ao longo dos últimos meses pelo governo de Donald Trump contra o Brasil, as incertezas na relação bilateral e a busca de empresas nacionais por novos mercados transformam a balança comercial entre EUA e o Brasil.
Aplaudidas pelo lobby bolsonarista, as taxas contra os produtos nacionais geraram uma explosão no déficit exportador do Brasil com o mercado americano, aprofundando o desequilíbrio na relação.
Dados oficiais publicados pelas autoridades americanas nesta terça-feira revelam que, no primeiro trimestre de 2026, a balança comercial de produtos e serviços com o Brasil somou um superávit para os EUA de US$ 12,1 bilhões.
O país, assim, é um dos maiores responsáveis por um saldo positivo para a economia norte-americana. Apenas seis outros países contam com resultados mais benéficos aos EUA. São eles: Holanda, Reino Unido, Suíça, Hong Kong e Cingapura.
Os valores são significativamente maiores que as taxas registradas no primeiro trimestre de 2025, antes da entrada em vigor do primeiro tarifaço contra o Brasil. Naquele momento, o saldo favorável aos EUA era de apenas US$ 7,7 bilhões.
Neste mesmo período, as vendas do Brasil caíram de US$ 13 bilhões no começo de 2025 para US$ 10 bilhões, no primeiro trimestre de 2026.
Ao longo dos anos, os dados também revelam um avanço substancial do saldo favorável aos EUA. Em 2023, o superávit dos EUA era de US$ 22,7 bilhões com o Brasil. No último ano de Joe Biden, em 2024, o volume chegou a US$ 29,4 bilhões. Mas, em 2025, o déficit brasileiro superou a marca de US$ 41 bilhões.
O desequilíbrio na balança comercial entre os dois países é um dos argumentos usados pelo Brasil para tentar impedir a aplicação de mais uma tarifa contra os produtos nacionais. Na semana passada, o governo Trump sinalizou que pode afetar o país com mais 37,5% em taxas.
Uma reunião entre negociadores dos EUA e do Brasil deve ocorrer nesta semana. Para reverter o impacto, o governo Lula já sinalizou que está disposto a fazer concessões para que haja um acordo. A proposta, porém, se limita às questões de tarifas de importação.
Mas o que está fora de consideração é qualquer chance de que haja um processo negociador sobre o Pix, algo que foi sugerido pelo bolsonarismo. O governo já insistiu que o sistema de pagamentos não será oferecido como área a ser debatida.
Tampouco haverá uma oferta por parte do Brasil de abertura do mercado de terras raras. Para que esse assunto entre na agenda, o governo Lula vai exigir que haja um processamento no país e que parte da produção seja mantida para abastecer o mercado nacional.
Quando as tarifas foram anunciadas, Lula sinalizou que poderia enviar uma carta para Trump. A declaração servia para avisar às autoridades americanas de que o Brasil quer negociar.
Mas, dentro do governo, existe uma percepção de que há uma diferença entre a taxa de 12,5% e a barreira de 25%.
Brasília considera que a primeira barreira – anunciada a partir do argumento de trabalho escravo – seria uma base que Trump usará contra todo o mundo e que, portanto, não existem chances elevadas de uma revisão. O fato de aliados como Argentina, Catar ou Israel terem também sofrido tarifas revelaria que a taxa deve ser aplicada contra todos e que não seria uma barreira política.
O foco da negociação, portanto, seria a de reduzir as taxas de 25%, específica contra o Brasil. Uma opções é a de oferecer tarifas mais reduzidas para produtos americanos no país, como forma de chegar a um acordo. O governo admite que o processo será “difícil”, mas não impossível.
Um dos caminhos seria conseguir incluir novos produtos na lista de isenção por parte dos EUA. Não se descarta ainda rever a posição do Brasil de impedir um acordo na OMC que permita que haja uma isenção de tarifas contra serviços digitais, um dos pleitos do governo Trump e que vinha sofrendo uma recusa por parte do Itamaraty.
De acordo com fontes, um dos obstáculos é ainda o caráter maximalista do governo, que vem insistindo em fazer amplas demandas. Agora, a esperança do Brasil é de negociar de forma setorial.




