Por Cleber Lourenço
Em queda nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) iniciará nos próximos dias uma rodada de visitas a algumas das principais redações jornalísticas do país. A agenda foi anunciada pela campanha como uma iniciativa para fortalecer o diálogo institucional com a imprensa, mas ocorre após anos em que a própria família Bolsonaro construiu uma relação marcada por ataques, intimidações e confrontos com profissionais da comunicação.
Segundo comunicado distribuído pela pré-campanha, Flávio terá encontros com dirigentes de veículos de comunicação, CEOs, diretores e executivos do setor. O objetivo declarado é promover debates sobre temas de interesse nacional e apresentar suas visões para o cenário político, econômico e social do país.
“A democracia se fortalece com respeito, diálogo e liberdade. A imprensa tem um papel fundamental na formação da opinião pública, e encontros como estes são oportunidades valiosas para ouvir e apresentar propostas, além de aprofundar o debate sobre o futuro do nosso país. O bom relacionamento com os meios de comunicação é essencial para a construção de canais permanentes de franco debate”, afirmou o senador em nota.
Anos de ataques à imprensa
O movimento representa uma mudança significativa de postura para um grupo político que, durante anos, transformou o embate com a imprensa em uma de suas principais marcas.
Durante seu mandato, o ex-presidente Jair Bolsonaro protagonizou sucessivos episódios de hostilidade contra jornalistas. Em entrevistas e coletivas, atacou profissionais de diversos veículos, desqualificou reportagens, questionou a credibilidade da imprensa e chegou a mandar jornalistas “calarem a boca” em mais de uma ocasião.
A relação conflituosa também atingiu diretamente profissionais que cobriam o dia a dia do então presidente. A jornalista Manuela Borges, do ICL Notícias, foi alvo de agressões verbais de Jair Bolsonaro durante uma entrevista, em um episódio que se somou a uma longa lista de confrontos entre o ex-presidente e repórteres.
O histórico de embates não se limita ao patriarca da família. Recentemente, o próprio Flávio Bolsonaro protagonizou um bate-boca com jornalistas ao ser questionado sobre sua relação com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Durante uma coletiva, o senador acusou um profissional de imprensa de mentir ao abordar reportagens que tratavam das ligações entre o pré-candidato e o empresário investigado.
O episódio ocorreu em meio ao desgaste provocado pelas revelações envolvendo Vorcaro e o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. O caso passou a ocupar espaço relevante no debate político e provocou questionamentos sobre a relação entre o senador e o empresário.
Outro integrante da família, Eduardo Bolsonaro, também esteve envolvido recentemente em uma controvérsia com a imprensa. Nos Estados Unidos, reagiu à presença de um jornalista do Intercept Brasil que realizava uma apuração sobre sua permanência no país. Na ocasião, afirmou ter acionado a polícia e fez referências ao fato de que muitas pessoas no Texas possuem armas, declaração interpretada por entidades da categoria como uma forma de intimidação ao trabalho jornalístico.
A ofensiva de aproximação anunciada agora pela campanha de Flávio ocorre em um momento delicado para o senador.
Levantamentos recentes de diferentes institutos apontam Lula à frente do pré-candidato bolsonarista nos cenários de primeiro turno da disputa presidencial. Em pesquisa AtlasIntel divulgada neste mês, o presidente aparece com 47,8% das intenções de voto contra 44,4% de Flávio Bolsonaro em um cenário de segundo turno. Já em levantamento da Genial/Quaest, Lula registra 32% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto Flávio aparece com 18%, atrás também de nomes que disputam espaço no campo da direita.
Outras pesquisas mostram que, embora Flávio tenha herdado parte significativa do eleitorado identificado com o bolsonarismo, ele enfrenta dificuldades para ampliar sua base de apoio entre eleitores moderados e indecisos. Os levantamentos também indicam índices de rejeição elevados, fator que preocupa aliados e estrategistas da campanha.
Nos bastidores políticos, a avaliação é que uma candidatura presidencial competitiva exigirá do senador um esforço de diálogo com setores que historicamente mantiveram uma relação distante — e muitas vezes conflituosa — com o bolsonarismo. A aproximação com grandes veículos de comunicação é vista como parte dessa estratégia de reposicionamento.
O comunicado da campanha não informa quais redações serão visitadas nem divulga um cronograma detalhado dos encontros. Também não menciona entrevistas abertas ou sabatinas. A programação anunciada prevê reuniões com dirigentes, CEOs, diretores e executivos dos veículos.
O contraste entre a agenda de aproximação e o histórico de confrontos da família Bolsonaro com jornalistas ajuda a explicar a atenção despertada pela iniciativa. Depois de anos em que a imprensa foi frequentemente apresentada como adversária política do bolsonarismo, Flávio Bolsonaro agora tenta construir pontes justamente com um dos setores mais atacados pelo grupo ao longo da última década.




