Debate sobre cotas acaba em confusão após invasão da extrema direita em universidade de SC

Debate sobre cotas acaba em confusão após invasão da extrema direita em universidade de SC
Publicado em 10/07/2026 às 13:19

Por Gabriel Gomes

Pré-candidatos e integrantes de movimentos de extrema direita provocaram tumulto durante uma sessão do Conselho Universitário (Consuni) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), realizada nesta quinta-feira (9). A reunião discutia uma proposta de ampliação das políticas de ações afirmativas na instituição.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram o momento da confusão. As imagens registram empurrões, gritos, discussões e agressões entre os presentes, interrompendo a sessão do conselho.

Em publicação nas redes sociais, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Udesc afirmou que estudantes foram agredidos por integrantes do Partido Missão, do Partido Liberal (PL) e do Movimento Brasil Livre (MBL). Segundo a entidade, o grupo compareceu ao local com o objetivo de provocar os participantes e impedir a votação da proposta.

Nas imagens da confusão aparecem o pré-candidato a deputado estadual pelo PL Bruno Souza e o pré-candidato a deputado federal pelo Partido Missão Felipe Barcellos entre estudantes e demais participantes da sessão.

“O objetivo deles era inviabilizar a votação sobre a ampliação das políticas de ações afirmativas da universidade”, afirmou o DCE.

Secretária-Geral do DCE da Udesc, a estudante Beatriz Sell afirmou ao ICL Notícias que a sessão desta quinta-feira marcou “um acirramento muito claro” da disputa em torno das ações afirmativas na universidade.

“A realidade é que essas pessoas não querem que o povo preto e pobre entre na universidade, porque querem continuar utilizando essas pessoas da mesma forma como utilizam desde a época da escravidão: explorando elas”, declarou.

“Eles começaram uma movimentação de querer provocar as pessoas e, com isso, vieram diretamente para a agressão física. Alguns estudantes foram agredidos: estudantes mulheres, estudantes trans, estudantes negros e pobres. Também os secundaristas que foram para a universidade reivindicar o direito deles de acessar a universidade”, afirmou.

Nas redes, o diretório classificou a ação como uma “tentativa covarde de implodir a sessão do Conselho Universitário” e acusou integrantes do MBL de agredir estudantes, mulheres, pessoas negras e secundaristas.

“Numa tentativa covarde de implodir a sessão do Conselho Universitário, fascistas do MBL vieram provocar os estudantes, chegando mesmo a agredir mulheres, pessoas negras, estudantes secundaristas e muito mais!”, publicou a entidade.

O DCE também declarou que “isso só mostra a política suja desses movimentos, que defendem a precarização da vida das minorias sociais e usam da violência para abafar as lutas populares”.

O ICL Notícias procurou a Polícia Militar de Santa Catarinae a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) para comentar o episódio. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta. O espaço permanece aberto para manifestações.

Cotas já haviam sido alvo de ofensiva do governo Jorginho Mello

A ampliação das políticas de ações afirmativas, tema da reunião do Conselho Universitário da Udesc, ocorre em um contexto de disputas envolvendo o sistema de cotas em Santa Catarina.

Neste ano, o governo do estado, comandado por Jorginho Mello (PL), sofreu uma derrota no Supremo Tribunal Federal (STF) após sancionar uma lei que proibia o repasse de recursos públicos a instituições de ensino que adotassem políticas de cotas raciais.

Em julgamento unânime, por 10 votos a 0, o STF declarou a inconstitucionalidade da norma. O relator do caso, ministro Gilmar Mendes, foi acompanhado por todos os demais integrantes da Corte. O magistrado afirmou que o entendimento do Supremo em favor das ações afirmativas já estava consolidado e criticou a aprovação da legislação sem uma análise adequada de seus impactos.

A lei, sancionada por Jorginho Mello em janeiro, estabelecia restrições ao financiamento público de instituições que adotassem políticas de reserva de vagas. Além das universidades estaduais, a medida também poderia atingir estudantes beneficiados por programas de bolsas em instituições privadas.

A instituição mais afetada pela lei seria justamente a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), que emitiu, à época, uma nota apontando indicativos de inconstitucionalidade na lei.

A norma afetava diretamente o Universidade Gratuita e o Fundo de Apoio à Manutenção e ao Desenvolvimento da Educação Superior Catarinense (FUMDESC), responsáveis pela concessão de bolsas e auxílio financeiro no ensino superior. Pelas regras estabelecidas, estudantes poderiam perder os benefícios caso a instituição adotasse cotas em qualquer processo seletivo, mesmo recebendo recursos federais.

Antes de ser derrubada pelo STF, a legislação também havia sido contestada em ações ajuizadas pelo PSOL e em questionamentos apresentados à Justiça estadual e a órgãos de controle.