A tirania nossa de cada dia

A tirania nossa de cada dia
Publicado em 12/06/2026 às 8:00

Como diz a canção, estamos cada vez mais envelhecendo e adoecendo em uma semana, pelo menos umas dez. Um amigo professor, no desespero do desemprego e da precarização, num horizonte de guerras, genocídios naturalizados e super El Niño, me mandou um áudio no meio da tarde. A voz dele carregava aquele peso metálico de quem está segurando o teto do mundo com os próprios ombros. E enquanto eu ouvia o relato do aluguel atrasado, da febre da filha na madrugada, do chefe que exige presença de corpo e alma sem oferecer nem o pão e nem o circo, me peguei pensando na anatomia da tirania.

Temos essa mania ingênua, talvez herdada dos livros escolares, de procurar os tiranos apenas nos palácios, nas sacadas governamentais, assinando decretos e mobilizando exércitos. Imaginamos a tirania como um monstro de proporções épicas, vestido com faixas presidenciais ou fardas condecoradas. Mas a verdade, essa verdade áspera que rasga feito faca a carne do nosso cotidiano é que a tirania – pasmem – é bem democrática. Ela está em toda parte, em todos os poros de uma sociedade feita para nos torturar.

Ela não precisa de tanques nas ruas para nos esmagar, basta o relógio de ponto – hoje substituído pela exibição constante dos nossos “feitos” nas várias mídias sociais – e a ameaça silenciosa da miséria. A tirania respira no oportunismo rasteiro e na submissão gratuita. Ela se banqueteia nas viradas de mesa, onde o cinismo vence o esforço, e quem grita mais alto ou tem o contato certo rouba o “mérito” (a grande falácia da modernidade) de quem suou a camisa. Os educadores e professores conhecemos bem essa história. O velho clichê do “você trabalha ou só da aula” é ainda a triste realidade de quem escolheu o caminho da educação, da história e das letras.

Vejo o rosto desse pequeno tirano no olhar de desdém lançado ao professor que narra as dores do mundo, do dedo em riste contra o trabalhador do setor de serviços, exausto depois de dez horas em pé. Sinto o peso de sua bota no desrespeito crônico aos professores, que entram em salas de aula desprovidos de tudo, enfrentando não apenas a lousa vazia, mas uma sociedade que os transformou em alvos do seu próprio fracasso. A opressão não mora apenas na carteirada do “você sabe com quem está falando?”, mas na certeza absoluta que você é um número, uma planilha, na falta de empatia (e o Capital algum dia foi empático?!) de quem acha que o mundo é um balcão de negócios onde tudo tem preço e nada tem valor.

Uma coisa é você conviver com as lógicas do poder. Todos nós, de alguma forma, negociamos nossa sobrevivência. Engolimos a seco, sorrimos amarelo, dobramos a espinha para garantir o pão na mesa. É o jogo duro e tantas vezes feio de estar vivo. Outra coisa, porém, é você fechar os olhos para o que esse poder realmente é. É anestesiar a própria consciência e começar a chamar a exploração de “meritocracia”, o abandono de “resiliência”. É naturalizar a barbárie como se fosse a ordem natural das coisas. Meu amigo, com suas olheiras profundas e exausto, não é vítima de uma infelicidade do destino. Ele é prisioneiro de uma tirania estrutural, de um arranjo invisível que pune quem cuida e é gentil no meio do deserto, e coroa quem explora.

Adoecemos dez anos em uma semana porque o ar está saturado dessas pequenas ditaduras diárias. E talvez a única insurreição possível, o primeiro passo para não sermos devorados por completo, seja justamente não desviar o olhar. Reconhecer a tirania na voz mansa do oportunista, na grosseria gratuita, no sistema que nos quer engrenagens. E, no meio dessa trincheira, segurar a mão da amiga e do amigo cansados, lembrando a eles – e a nós mesmos –  que não há nada de errado em desabar num mundo que foi meticulosamente desenhado para nos quebrar.

Vincent van Gogh: “Autorretrato com a Orelha Enfaixada”. 1888. Fonte: Domínio Público.