Por Cleber Lourenço
A sucessão de vazamentos envolvendo o caso Master levou autoridades a ampliar o monitoramento sobre a circulação de informações sigilosas produzidas ao longo da investigação.
Segundo apurou o ICL Notícias, há uma avaliação de que dados extraídos de quebras de sigilo e outras diligências passaram a ser explorados por diferentes pessoas para atender interesses paralelos — desde disputas políticas e tentativas de obtenção de vantagens financeiras até estratégias jurídicas voltadas a questionar a validade das provas e influenciar os rumos da investigação.
A preocupação ganhou novo impulso nesta sexta-feira (3), quando o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, confirmou publicamente que a corporação adotou medidas extraordinárias para preservar a cadeia de custódia das provas e impedir a circulação indevida de informações do caso.
“Já fizemos inclusive busca e apreensão contra um colega perito para coibir. Temos a compartimentação preservada para não ter questionamentos lá na frente”, afirmou Andrei durante café da manhã com jornalistas em Brasília.
A declaração faz referência à investigação que apurou o vazamento de informações atribuído ao perito João Cláudio Nabas e reforça uma preocupação que, segundo fontes ouvidas pelo ICL Notícias, já vinha sendo discutida por fontes que acompanham o caso.
Segundo essas fontes, o objetivo da investigação sobre os vazamentos nunca foi apenas descobrir quem repassou documentos protegidos por sigilo. O receio era compreender toda a cadeia de circulação dessas informações e identificar até onde o material havia chegado.
A avaliação era de que, se documentos da investigação estavam chegando a jornalistas antes mesmo da conclusão de diligências, também não poderia ser descartada a possibilidade de que essas mesmas informações estivessem alcançando pessoas investigadas ou diretamente interessadas no desfecho do caso, comprometendo medidas em andamento e permitindo reações antecipadas.
Foi justamente essa preocupação que levou a Polícia Federal a tratar o episódio envolvendo João Cláudio Nabas como um caso sensível. As informações reveladas nesta sexta-feira pelo Estadão reforçaram o entendimento de que preservar a cadeia de custódia se tornou tão importante quanto produzir novas provas.
Diferentes atores, diferentes interesses
Segundo autoridades ouvidas pela reportagem, não há elementos que indiquem a atuação de uma única organização responsável pelos vazamentos.
O que também passou a chamar a atenção é outro fenômeno: diferentes atores passaram a utilizar informações do caso Master conforme seus próprios interesses, sem que necessariamente exista qualquer coordenação entre eles.
Em comum, esses episódios têm o uso de dados produzidos durante a investigação como instrumento de pressão, influência política, obtenção de vantagens financeiras ou fortalecimento de estratégias processuais.
Um dos exemplos apontados envolve justamente João Cláudio Nabas.
Segundo a investigação, os vazamentos atribuídos ao perito tiveram como foco informações envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, personagens frequentemente atacados por setores do bolsonarismo, corrente política à qual Nabas manifesta simpatia.
Independentemente da motivação, o episódio demonstrou como informações protegidas por sigilo passaram a ser utilizadas para finalidades alheias à própria investigação.
Outro caso considerado emblemático envolve Joana Mourão, irmã de Luís Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”.
Conforme relatório da Polícia Federal, Joana ameaçou divulgar um dossiê que, segundo dizia, seria capaz de “acabar com a família” do banqueiro Daniel Vorcaro.
As mensagens interceptadas mostram que ela exigia dinheiro de pessoas ligadas ao empresário para custear despesas pessoais e familiares, alegando dificuldades financeiras.
A investigação aponta ainda que pessoas ligadas ao grupo investigado negociaram contratos e tentaram comprar o silêncio de Joana. Nas conversas, ela também ameaçava comprometer diretamente a delação envolvendo seu irmão e fazia referências a Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro.
O episódio demonstra que informações relacionadas ao caso passaram a ser utilizadas como instrumento de pressão e negociação muito antes da sequência de vazamentos registrada nas últimas semanas.
Vazamentos sucessivos ampliaram o alerta
Nos últimos dias, uma nova sequência de divulgações aumentou a preocupação das autoridades.
Entre os episódios estão a publicação de mensagens envolvendo a jornalista Malu Gaspar, inicialmente reveladas pelo portal Fatos Online, e novos diálogos da investigação divulgados por diferentes veículos de imprensa.
Segundo fontes ouvidas pelo ICL Notícias, a preocupação não recai sobre jornalistas ou sobre o exercício da atividade jornalística.
O foco está em quem possui acesso ao material sigiloso e utiliza divulgações seletivas para demonstrar que detém informações da investigação, pressionar personagens ligados ao caso, influenciar narrativas públicas ou obter vantagens de diferentes naturezas.
Aliados de Daniel Vorcaro vêm difundindo entre jornalistas a tese de que a defesa pretende questionar a validade das provas sob o argumento de que teria havido falhas na cadeia de custódia.
Embora não exista, até o momento, qualquer decisão judicial reconhecendo irregularidades na preservação das provas produzidas no caso Master, autoridades avaliam que a combinação entre sucessivos vazamentos e a construção dessa narrativa exige atenção redobrada.
A fala de Andrei Rodrigues, ao afirmar que a Polícia Federal compartimentou informações “para não ter questionamentos lá na frente”, é vista como um reconhecimento público de que a preservação da cadeia de custódia se tornou um dos pontos centrais da investigação.
Na avaliação de fontes ouvidas pela reportagem, o desafio deixou de ser apenas descobrir quem vazou determinado documento. O objetivo agora é compreender como informações altamente sensíveis passaram a circular entre diferentes atores e impedir que esse material continue sendo utilizado para interesses estranhos à investigação, sejam eles políticos, financeiros, processuais ou de pressão sobre pessoas envolvidas no caso.




