Flechas na Guanabara – ICL Notícias

Flechas na Guanabara – ICL Notícias
Publicado em 22/07/2026 às 6:14

Em algumas áreas do Rio de Janeiro, o funcionamento de terreiros de umbanda e candomblé é proibido. A ordem vem de milicianos e traficantes evangélicos que não querem em suas zonas de controle a presença dos tambores sagrados.

O poder público, ao mesmo tempo em que não garante a segurança dos terreiros, faz o possível e o impossível para agradar segmentos cristãos que exercem explicitamente a intolerância e o racismo religioso, de olho no eleitorado que pastores, apóstolos, bispos e missionários cheios de grana influenciam.

Recentemente, por exemplo, começaram as obras do Parque Terra Prometida, projeto municipal que pretende criar o primeiro parque temático com inspiração cristã da cidade. Enquanto isso, espaços e monumentos de celebração das espiritualidades de terreiro precisam de grades de proteção contra o vandalismo .

A cidade do Rio de Janeiro não tem uma história maravilhosa. Ela foi construída soterrando cemitérios indígenas e reformada soterrando cemitérios de africanos. O que salvou o Rio minimamente foi exatamente o que em diversas ocasiões os homens do poder tentaram aniquilar.

Foi chamando tupinambás e pretos novos e velhos para viver nas giras de lei, pitando cachimbos e lançando flechas encantadas, cantando sambas nas encruzas e praticando as ruas que a cidade sobreviveu.

Sou dos que acham que a umbanda afro-indígena, encruzilhada ao cristianismo não institucional, por exemplo, é a maior aventura civilizatória carioca, de braços dados com o samba. A macumba é a mais impactante solução corporal, epistêmica, encantada, sofisticada e surpreendente que o Rio de Janeiro encontrou contra a asfixia do colonialismo e o carrego dos encostos que assombram a Guanabara.

O axé da cidade está disperso. O Maracanã velho, um assentamento, foi destruído. Terreiros são depredados o tempo todo. Flechas, pedras, cachimbos, folhas, tambores, águas sagradas, defumadores: tudo está na mira dos boçais, os kiumbas do desencanto e da morte em vida.

Nós estamos num embate. A nossa mais radical, insinuante, sofisticada, desafiadora, experiência ontológica de estar originalmente no mundo – a civilização do tambor – vive ameaçada por uma visão de cidade desencantada, doentia, simplória, asséptica.

Escrevi em um texto já antigo que o Rio de Janeiro não inventou o samba. A relação é inversa. Foi o samba, filho dos tambores de terreiros, que inventou a cidade, afirmando a vida onde só a morte deveria triunfar.

Cada roda de samba na rua, cada terreiro que sobrevive, é flecha assobiando a coragem no tempo. Tem que ser assim. Ou aprofundamos estratégias cotidianas de restituição do axé, ou viveremos mortos em um cemitério de gentes apressadas, surradas e desencantadas, incapazes de driblar a morte como Garrincha driblava um João qualquer nos gramados.

Apesar de tudo, a flecha voa.