Os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Jair Renan Bolsonaro, que tentam manter a família em seu ciclo de poder a partir de Santa Catarina, foram contestados por receberem homenagens consideradas injustificadas por seu papel e peso político no Estado.
Jair Renan foi agraciado com uma moção de louvor na Câmara Municipal de Tijucas, cidade de 58 mil habitantes próxima de Balneário Camboriú. Carlos Bolsonaro recebeu uma medalha histórica do Corpo de Bombeiros Militar do Estado, no ano do seu centenário. A homenagem a Carlos foi vista com indignação entre políticos de esquerda e é alvo de uma ação popular que considera inexistirem “razões para a concessão de tal honraria ao agraciado”.
Ambos são a única esperança de manter a família no poder com uma cada vez mais possível derrota de Flávio Bolsonaro no pleito presidencial – isso se sua candidatura se sustentar após recente briga pública com a madrasta Michelle Bolsonaro. Como Eduardo Bolsonaro está inelegível e foragido nos Estados Unidos, são os filhos menos celebrados do ex-presidente que lutam para manterem o bolsonarismo vivo em um estado considerado central para o movimento.
A medalha de Carlos Bolsonaro é contestada também em seu trâmite administrativo. Não há menção à honraria recebida por Carlos no Diário Oficial do Estado. A homenagem ocorreu em 12 de junho, em cerimônia promovida pelo Corpo de Bombeiros. Nas imagens de divulgação do evento, aparecem também Caroline de Toni, parceira de Carlos na pré-candidatura ao Senado, e Jorge Seif, senador desde 2022, além de outras figuras políticas homenageadas, como o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto e a vice-governadora de Santa Catarina, Marilisa Boehm.
A ação popular questiona a homenagem recebida por Carlos a partir da normativa que instituiu a medalha, exigindo reputação ilibada e contribuição relevante para a corporação. “As medalhas reconhecem quem ajudou a construir esses cem anos de história”, disse o comandante-geral, coronel Fabiano de Souza, conforme divulgado pela Agência de Notícias do Governo.
Carlos transferiu domicílio eleitoral para São José no final de 2025. Não há qualquer registro oficial sobre seus feitos junto ao Corpo de Bombeiros Militar do Estado, nem mesmo quando era filho do ex-presidente e visitava o Estado acompanhado do pai.
“A honraria concedida tem caráter eleitoreiro, com o objetivo de causar repercussão eleitoral positiva e incutir na cabeça da população a falsa percepção de que o agraciado tenha prestado serviços relevantes ao estado”, diz a ação judicial protocolada em nome do também pré-candidato ao Senado, Décio Lima (PT), e da deputada federal Ana Paula Lima (PT-Santa Catarina). Nas suas redes, Carlos disse que, assim como o Corpo de Bombeiros, dedica a vida à defesa da vida, da segurança e do bem-estar “do nosso povo”.
Vereador “louvado”
Já a moção de louvor de Jair Renan teve um voto contrário e duas abstenções, em uma Câmara com 13 vereadores. Pode parecer pouco, mas em uma cidade conservadora o significado soa diferente: ao não se unirem à maioria, pelo menos três parlamentares representaram o constrangimento do momento. Nas redes sociais de jornais locais, comentários irônicos também contestam a moção, que não teve registro oficial no site da casa.
A justificativa do requerimento do vereador Écio Hélio de Melo expressa publicamente foi de que ele “gostou muito do menino”, que “sofreu muito” e “chorou” em conversa com ele. O parlamentar que votou contra foi Vilson José Porcincula (Progressistas). Jair Renan recebeu uma placa como símbolo da homenagem.
No texto da moção em que louva o filho do ex-presidente, Melo justifica que Jair Renan “tem mantido diálogo constante com lideranças políticas, comunitárias e representantes da sociedade civil, buscando contribuir com o crescimento regional e a valorização dos interesses da população catarinense”.
O filho mais novo de Jair Bolsonaro é pré-candidato a deputado federal, mas sua candidatura não tem aparecido muito no estado. Recentemente, o colega na Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú, Eduardo Zanatta (PT), pediu sua expulsão da Comissão de Segurança por ter faltado a nove reuniões, em um conjunto de 12. As ausências são encaradas como displicência e falta de tino para a atividade parlamentar.
A interpretação dos críticos das homenagens é de que a estratégia dos aliados dos Bolsonaro é dar visibilidade para os filhos mais “apagados” do clã, inclusive fazendo uso de instituições como o Corpo de Bombeiros para ampliar a participação política de Carlos no Estado. O texto da ação popular que contesta a homenagem argumenta que o órgão se sujeitou à grave violação aos princípios constitucionais da moralidade administrativa, da impessoalidade e da publicidade.
Os gestos de apoio também colocam luz na tensão nacional que se reproduz no Estado considerado aliado de primeira hora da família. Ainda não é possível dimensionar os impactos da amizade de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro e nem do racha entre os filhos do ex-presidente e a esposa dele, Michelle, em Santa Catarina. Manter as crias de Jair Bolsonaro sob algum holofote positivo, portanto, pode ser estratégico para quem depende do rótulo de bolsonarista e trabalha para manter a família no poder, ainda que não haja nenhum feito de ambos em benefício real de SC.
A coluna entrou em contato com a assessoria de imprensa do Corpo de Bombeiros e da Câmara de Tijucas para questionar sobre a repercussão das homenagens, mas não obteve retorno até o fechamento da notícia.




