Por Cleber Lourenço
Uma explosão seguida de incêndio em um trem marcou, nesta quinta-feira (23), o terceiro dia consecutivo de problemas na operação privada de três das principais linhas ferroviárias da região metropolitana de São Paulo, concedidas pelo governo de Tarcísio de Freitas.
A ocorrência atingiu uma composição da Trivia Trens, empresa que assumiu nesta semana as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade. Juntas, elas conectam o centro da capital paulista à populosa zona leste, a municípios do Alto Tietê e ao Aeroporto Internacional de Guarulhos.
O incêndio interrompeu a circulação das três linhas no horário de pico da manhã, afetou o serviço expresso para o aeroporto e obrigou passageiros a deixarem as composições e caminharem pelos trilhos.
Pela terceira manhã seguida, usuários também reclamaram da falta de informações da nova concessionária. Relatos publicados nas redes sociais apontam demora nos avisos, orientações desencontradas e ausência de esclarecimentos sobre o que havia ocorrido, o tempo previsto para a retomada do serviço e as alternativas disponíveis.
Vídeos feitos pelos próprios passageiros mostram fumaça intensa, chamas na parte superior de uma composição e pessoas caminhando pela via férrea no escuro, algumas usando as lanternas dos celulares.
A Trivia classificou a retirada dos usuários como um “desembarque assistido”. A expressão técnica, porém, contrasta com as imagens de passageiros deixando os trens e seguindo pelos trilhos sem compreender exatamente o que estava acontecendo.
Segundo o Corpo de Bombeiros, o chamado para a ocorrência foi registrado pouco antes das 6h, na região entre as estações Brás, Bresser-Mooca e Belém, área central da capital. Não houve registro de feridos.
A concessionária informou que uma ocorrência provocou a interrupção do fornecimento de energia entre as estações Brás e Sebastião Gualberto. O problema paralisou as linhas 12-Safira e 13-Jade e restringiu a circulação da Linha 11-Coral.
O sistema de ônibus emergenciais, conhecido em São Paulo como Paese, foi acionado para transportar passageiros entre trechos sem circulação ferroviária. A sobrecarga se espalhou para a Linha 3-Vermelha do Metrô, principal alternativa para quem se desloca entre a zona leste e o centro da cidade.
A Prefeitura de São Paulo também suspendeu temporariamente o rodízio municipal de veículos em importantes corredores da zona leste, numa tentativa de reduzir os efeitos da paralisação sobre o trânsito.
O episódio é ainda mais grave porque não representa uma falha isolada. Desde que a Trivia começou a operar as três linhas, na terça-feira (21), todos os dias foram marcados por problemas que afetaram diretamente os passageiros.
No primeiro dia, uma composição da Linha 12-Safira apresentou falha na estação Brás e precisou ser esvaziada. O problema provocou atrasos, aumento do intervalo entre os trens e superlotação em uma das estações mais movimentadas de São Paulo.
Na quarta-feira (22), segundo dia da operação privatizada, uma falha em um equipamento de via obrigou os trens a circularem com velocidade reduzida em parte da Linha 12. Passageiros voltaram a relatar atrasos, plataformas cheias e falta de informações adequadas.
Nesta quinta-feira, o terceiro dia de operação elevou a crise a outro patamar. A explosão e o incêndio atingiram uma composição em circulação, provocaram uma interrupção simultânea das linhas e expuseram milhares de usuários a uma situação de emergência.
A Trivia pertence ao Grupo Comporte e assumiu as linhas por meio de uma concessão conduzida pelo governo Tarcísio de Freitas. O contrato tem duração de 25 anos e prevê R$ 14,3 bilhões em investimentos, incluindo reformas, novas estações, ampliação da infraestrutura e redução dos intervalos entre os trens.
O governo paulista apresentou a concessão como parte de seu projeto de ampliar a participação privada no transporte público sobre trilhos. O início da operação, entretanto, tem sido marcado não pela prometida eficiência, mas por falhas consecutivas, interrupções e uma comunicação incapaz de orientar os passageiros nos momentos mais críticos.
O roteiro não é novo em São Paulo
Em janeiro de 2022, a ViaMobilidade assumiu integralmente as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, que atendem a zona oeste da capital e municípios da região metropolitana.
Poucos dias depois do início da operação privada, as duas linhas começaram a registrar falhas elétricas, problemas de sinalização, intervalos irregulares e paralisações.
Na Linha 9-Esmeralda, uma explosão seguida de incêndio em cabos da rede elétrica ocorreu menos de três semanas após a concessionária assumir completamente o serviço. A circulação foi interrompida e passageiros enfrentaram lotação e dificuldades para chegar ao trabalho.
Nas semanas seguintes, as falhas se multiplicaram. Um levantamento divulgado à época contabilizou 30 ocorrências nas linhas 8 e 9 em apenas 47 dias de operação privada. Os episódios provocaram uma crise prolongada e levaram o Ministério Público e órgãos de fiscalização a cobrarem providências da concessionária e do governo paulista.
As causas técnicas do incêndio daquela ocasião e do episódio registrado agora são diferentes. Na Linha 9, as chamas iniciais atingiram a infraestrutura elétrica. Nesta quinta-feira, o fogo apareceu sobre uma composição da Trivia.
O paralelo, porém, está na repetição do mesmo roteiro: concessões apresentadas como solução para os problemas do transporte público começam sob falhas sucessivas, enquanto os passageiros enfrentam interrupções, superlotação e falta de informações.
A situação também evidencia um problema que vai além da manutenção dos trens. Em emergências, a comunicação da concessionária faz parte da segurança da operação.
Passageiros precisam saber se devem permanecer nas composições, deixar os vagões, procurar outra linha ou aguardar ônibus emergenciais. Sem orientação clara, o risco de pânico, acidentes e movimentações desordenadas aumenta.
A repetição das reclamações nos três primeiros dias mostra que a falta de informação não foi uma falha pontual provocada pelo incêndio. Ela aparece como um dos primeiros problemas estruturais da nova operação.
Antes de assumir as linhas, a Trivia anunciou que havia preparado mais de 1,2 mil profissionais para atuar na prevenção e na resposta a incêndios. A empresa afirmou que o treinamento demonstrava seu compromisso com a segurança e a excelência operacional.
Três dias depois da estreia, a concessionária terá de explicar não apenas a causa da explosão e do incêndio, mas também por que a operação começou com falhas em todos os dias e por que passageiros voltaram a enfrentar uma emergência sem receber informações suficientes.
O ICL Notícias enviou um pedido de posicionamento ao governo do estado de São Paulo questionando como está sendo feita a fiscalização da operação da Trivia durante o período de transição, se foi aberta apuração sobre a explosão e o incêndio e qual é a causa preliminar da ocorrência. A reportagem também solicitou esclarecimentos sobre eventuais penalidades à concessionária, número de passageiros afetados, protocolos de segurança acionados, avaliação da comunicação com os usuários e se órgãos como Artesp e CPTM identificaram falhas na preparação da empresa antes do início da operação.
Além disso, o veículo questionou quais medidas foram adotadas para evitar a repetição dos problemas registrados no início da concessão das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda e se o governo mantém a avaliação de que a transição para a operação privada ocorreu de forma adequada. Até a publicação desta reportagem, não havia retorno.




