Milei, Tarcísio e Flávio: o Espetáculo da Dependência

Milei, Tarcísio e Flávio: o Espetáculo da Dependência
Publicado em 26/07/2026 às 12:30

O famigerado mês de julho de 2026 trouxe a São Paulo um inverno não apenas meteorológico, mas político. A chegada de Javier Milei, presidente da Argentina, à capital paulista no dia 25 não foi uma mera visita de cortesia entre vizinhos sul-americanos. Foi o início de uma liturgia da extrema direita, um rito de passagem onde a subserviência se vestiu de gala e a vassalagem foi celebrada com a Ordem do Ipiranga. O roteiro, previsível em sua cafonice, dividiu-se em dois atos: o beija-mão oficial no Palácio dos Bandeirantes e o palanque mambembe no Pacaembu.

No primeiro ato, o Palácio dos Bandeirantes, outrora palco de decisões de Estado, foi rebaixado a um anexo da Casa Rosada. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e autoproclamado herdeiro do espólio bolsonarista, recebeu Milei com a reverência de quem acolhe um profeta. A outorga da Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do Estado, a um presidente cuja popularidade despenca na Argentina em meio a escândalos de corrupção e uma economia sufocada por uma inflação de 33%, soa como uma piada de muito mau gosto. Tarcísio já havia concedido a mesma medalha à irmã de Milei, Karina, num ensaio para o vexame atual. A pompa e a circunstância da cerimônia não conseguiram esconder o cheiro de mofo de uma ideologia que, incapaz de entregar resultados concretos, se apega a símbolos ocos e ao caos.

O segundo ato, no Pacaembu, foi o coroamento da farsa. A convenção do Partido Liberal (PL) serviu como palco para o lançamento da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Sem alianças políticas consolidadas, sem um vice definido e assombrado por investigações no Supremo Tribunal Federal, Flávio (o 01) buscou em Milei a musculatura que lhe falta internamente. A presença do argentino não foi um endosso de peso, mas um abraço de afogados. Flávio, que ostenta a pecha de herdeiro de um ex-presidente em prisão domiciliar, tenta se agarrar à “motosserra” enferrujada de Milei para tentar reanimar uma base eleitoral que, embora ruidosa, se mostra insuficiente para vencer eleições majoritárias.

Mas a visita de Milei não pode ser compreendida apenas no microcosmo da política brasileira. Ela é parte de uma engrenagem maior, uma engrenagem movida a partir de Washington. A América do Sul assiste a um realinhamento ideológico preocupante, com vitórias da direita radical no Peru e na Colômbia. O mapa político da região está sendo redesenhado à imagem e semelhança de Donald Trump, que tentará a todo custo interferir nas eleições de outubro por aqui. Milei, que após o Brasil segue em turnê para bajular os novos governantes de Lima e Bogotá, atua como um caixeiro-viajante dessa nova ordem, um despachante dos interesses norte-americanos na região. Um despachante da morte e o suprassumo da necropolitica privatista.

A subserviência dessa nova extrema direita sul-americana aos Estados Unidos é abjeta. Enquanto Trump impõe tarifas punitivas ao Brasil  — algo que Flávio Bolsonaro admite ter tentado, sem sucesso, impedir —, seus aliados na região celebram a submissão. A promessa de resgates financeiros e o afago retórico de Trump são suficientes para que líderes como Milei sacrifiquem a soberania nacional em troca de uma pátina de legitimidade internacional. É como se o Brasil estivesse sofrendo a ameaça de um novo ‘cordão sanitário’ da extrema direita mundial.

O que se viu em São Paulo foi a celebração da dependência. Uma direita que se diz patriota, mas que bate continência para a bandeira estrangeira. Uma direita que fala em liberdade, mas que se ajoelha perante o capital financeiro internacional. A visita de Javier Milei foi um espetáculo deprimente, uma demonstração de que a extrema direita sul-americana não tem projeto de nação, apenas um projeto de vassalagem. E, no meio dessa ópera bufa, Flávio Bolsonaro tenta se equilibrar num palanque que já nasce carcomido pela irrelevância política e pela subserviência ideológica. A ver se assim compreenderá a eleitora, o eleitor brasileiro e também a máquina golpista operada desde os EUA.

O governador Tarcísio de Freitas e o presidente da Argentina Javier Milei. Foto: ROBERTO CASIMIRO/FOTOARENA/ESTADÃO.