Perito é suspeito de produzir dossiês sobre ministros do STF

Perito é suspeito de produzir dossiês sobre ministros do STF
Publicado em 03/07/2026 às 17:28

A Polícia Federal (PF) identificou que o perito criminal João Cláudio Nabas produziu dois arquivos com referências aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Dias Toffoli -intitulados “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf” -, a partir de citações encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. As informações foram publicadas pelos jornalistas Felipe de Paula, Aguirre Talento e Fausto Macedo, no Estadão.

A investigação foi aberta pela PF por ordem do relator, ministro André Mendonça, para apurar vazamentos do celular de Vorcaro. Em maio, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão contra Nabas, que passou a responder por suspeita de violação de sigilo funcional e foi afastado das atividades.

Segundo a apuração, Nabas foi integrado à equipe da Operação Compliance Zero em novembro de 2025 para atuar na análise técnica do material apreendido. Registros internos da corporação indicam que ele acessou os dados obtidos do celular em 1º de dezembro e, três dias depois, criou os dois arquivos em PDF. Os registros foram obtidos no sistema interno da própria PF.

Os arquivos compilavam diálogos, documentos e menções relacionados aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli encontrados no celular de Daniel Vorcaro. Um deles incluía trechos do contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.

De acordo com o relatório, policiais que integravam a investigação relataram que o perito encaminhou um dos arquivos ao grupo responsável pelo caso e, em seguida, enviou uma mensagem de áudio defendendo que o material fosse divulgado à imprensa. Os colegas teriam recusado a sugestão. Dias depois, os detalhes do contrato da esposa de Moraes estamparam os jornais. Na ocasião, veio à público que Viviane encaminhou o contrato diretamente ao WhatsApp do ex-banqueiro.

A investigação da PF afirma que o perito “de fato criou os documentos relacionados aos magistrados e a análise dos metadados e conteúdos de tais manuscritos reforçando os indícios de que Nabas organizou e repassou à imprensa os dados sigilosos referentes às informações sobre os ministros do STF encontrados no celular apreendido de Daniel Vorcaro”.

A PF sustenta que Nabas acessou os dados do celular de Daniel Vorcaro sem autorização e “direcionou seus esforços em sentido contrário ao escopo das investigações”, buscando informações sobre os ministros do STF para divulgação à imprensa.

Os depoimentos colhidos no inquérito também indicam que Nabas realizava a análise dos arquivos de forma remota, a partir de Vilhena (RO), cidade onde é lotado, e que, em 5 de dezembro de 2025, enviou um arquivo em PDF sem identificação contendo um compilado de mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro. Após o episódio, ele foi retirado da equipe da Operação Compliance Zero e teve o acesso aos materiais da investigação bloqueado.

Pela legislação brasileira, eventuais investigações envolvendo ministros do Supremo só podem ser conduzidas mediante autorização da própria Corte. Em razão do foro por prerrogativa de função, qualquer procedimento investigativo contra integrantes do STF deve tramitar sob supervisão do tribunal e ser distribuído à relatoria de um de seus ministros.

A reportagem do Estadão entrou em contato com o escritório de advocacia que defende João Nabas e não houve manifestação. Os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli também foram procurados mas não se manifestaram.