A comparação entre o Pix e o Zelle, feita recentemente por Eduardo Bolsonaro, gerou reação de especialistas e comentaristas que acompanham o sistema financeiro. Em programas do ICL Notícias e do ICL Mercado e Investimentos desta segunda-feira (8), a jornalista Heloísa Villela e a economista Deborah Magagna argumentaram que os dois sistemas possuem características muito diferentes e que o Zelle não pode ser considerado uma versão americana do Pix.
Heloísa Villela, que viveu durante anos nos Estados Unidos, afirmou que utilizou o Zelle diversas vezes para transferir dinheiro entre pessoas, mas destacou que o sistema não desempenha o mesmo papel que o Pix no cotidiano dos brasileiros.
Segundo ela, o Zelle é utilizado principalmente para enviar dinheiro a amigos, familiares ou prestadores de serviços, como professores particulares, mas não é empregado de forma ampla para compras em estabelecimentos comerciais.
“O Zelle não é o Pix dos Estados Unidos”, afirmou.
Na avaliação da jornalista, não existe atualmente nos Estados Unidos um sistema de pagamentos instantâneos com a abrangência e a integração que o Pix alcançou no Brasil.
Impacto sobre as empresas de cartão
Para Heloísa, a resistência de setores americanos ao avanço de sistemas semelhantes ao Pix está ligada aos interesses das grandes empresas de cartão de crédito.
Enquanto uma transação realizada por Pix geralmente não gera custos para o comerciante, pagamentos feitos por cartão costumam envolver taxas cobradas pelas operadoras. Isso reduz a margem de lucro dos estabelecimentos e fortalece a competitividade do sistema brasileiro.
A jornalista destacou ainda que o crescimento dos pagamentos instantâneos representa uma ameaça ao modelo de negócios das gigantes financeiras que dominam o mercado de cartões nos Estados Unidos.
Sistema brasileiro virou referência internacional
A economista Deborah Magagna também criticou a comparação feita entre os dois meios de pagamento. Segundo ela, o Pix se tornou uma das principais inovações financeiras do Brasil nos últimos anos e passou a ser estudado por outros países interessados em implantar soluções semelhantes.
Magagna lembrou que o sistema foi desenvolvido pelo Banco Central e opera dentro de uma estrutura pública, permitindo transferências instantâneas, pagamento de contas, compras em estabelecimentos comerciais e até recolhimento de tributos.
Além disso, o Pix funciona de forma ininterrupta, 24 horas por dia, sete dias por semana, e conta com mecanismos específicos para auxiliar na devolução de valores em casos de fraude.
Já o Zelle, segundo a economista, é um sistema privado, controlado por grandes bancos americanos, restrito às instituições participantes e focado principalmente em transferências entre pessoas físicas e pequenos negócios.
Diferenças entre Pix e Zelle
Entre as principais diferenças apontadas pelas especialistas estão:
- Origem do sistema: o Pix foi criado pelo Banco Central; o Zelle é uma iniciativa privada dos bancos americanos;
- Abrangência: o Pix é aceito por praticamente todas as instituições financeiras autorizadas no Brasil; o Zelle funciona apenas entre bancos participantes;
- Uso comercial: o Pix é amplamente utilizado em lojas, serviços e pagamentos de contas; o Zelle tem foco em transferências entre usuários;
- Velocidade e disponibilidade: ambos operam de forma rápida, mas o Pix possui integração mais ampla e alcance nacional;
- Proteção ao usuário: o sistema brasileiro dispõe de mecanismos específicos para tentativa de recuperação de valores em casos de fraude.
Debate vai além da tecnologia
Para as duas comentarista do ICL, a discussão não envolve apenas tecnologia financeira, mas também interesses econômicos e geopolíticos.
Heloísa Villela destacou que o avanço de sistemas de pagamento instantâneo reduz a dependência de intermediários tradicionais, enquanto Magagna argumentou que o Pix se tornou um ativo estratégico para o Brasil por oferecer uma alternativa eficiente, gratuita para pessoas físicas e amplamente adotada pela população.
Com mais de 170 milhões de usuários e movimentações que já superam dezenas de trilhões de reais por ano, o Pix consolidou-se como um dos sistemas de pagamento instantâneo mais bem-sucedidos do mundo, tornando-se referência internacional em inclusão financeira e digitalização dos meios de pagamento.




