Deve fracassar a tentativa da extrema direita de criar um verdadeiro muro entorno da Suíça. Neste domingo, os cidadãos do país alpino foram às urnas para decidir se davam seu apoio ao projeto de criar um limite para a população suíça ou rejeitavam a iniciativa. A primeira projeção, porém, revela que a ideia não vingou.
Neste domingo, o instituto de pesquisas gfs.bern indicou que a tendência é de que a proposta de limitar a Suíça a 10 milhões de pessoas até 2050 foi derrotado. O governo era contra e fez campanha para que, nas urnas, a população rejeitasse o plano.
Em 2000, a Suíça possuía pouco mais de 7 milhões de habitantes. Em 2025, essa taxa chegou a 9 milhões, com 27% de estrangeiros. Para a extrema direita, o país estava “lotado” e a culpa era da imigração, causando altas nos aluguéis e até impacto ambiental.
O projeto estipulava que, se a população chegasse a 9,5 milhões de pessoas, o governo teria de agir. O primeiro passo seria recusar a entrada de solicitantes de asilo e impedir a reunificação de famílias de estrangeiros que já estejam no país. As autoridades ainda deveriam, neste caso, renegociar acordos de imigração com dezenas de parceiros.
Se nada disso for capaz de frear o aumento da população, o governo teria de sair dos acordos de livre circulação de pessoas com a UE.
Quem liderou a proposta foi o Partido do Povo Suíço (SVP, na sigla em alemão). Seu argumento era de que a chegada de estrangeiros tem sido descontrolada e que medidas de controle precisam ser estabelecidos. No fundo, um muro.
“Muita gente se sente cada vez mais estranha em seu próprio país”, diz o co-iniciador do projeto e deputado federal Thomas Matter. Repetindo o mantra de Donald Trump, o grupo insiste que “gente demais e pessoas erradas” estariam imigrando para a Suíça.
A aprovação seria o ápice do movimento que começou há duas décadas. Entre 2007 e 2008, a extrema direita na Suíça causou uma polêmica ao distribuir pelas cidades cartazes contra a imigração. Naquela imagem, ovelhas brancas pastando em território suíço davam um coice para expulsar do país uma ovelha negra. Meses depois, um outro cartaz apareceu. Nele, mãos negras tentavam agarrar um passaporte suíço.
Agora, o mesmo grupo xenófobo e que ganhou espaço na política nacional nos últimos anos conseguiu reunir assinaturas suficientes para forçar um plebiscito popular. Nele, havia um terremoto político e social.
Trata-se de mais um capítulo – e inédito – do avanço da agenda anti-imigração que vem dominando o debate político em parte significativa dos países desenvolvidos, mesmo que seja nos países emergentes que a grande massa de refugiados está concentrada.
Pesou o fato de que, no fundo, a aprovação representaria sérios prejuízos para a Suíça. Se o país romper os acordos de livre circulação, a Europa já anunciou que irá também suspender os acordos sobre o livre comércio, pesquisa e transporte.
Uma das maiores preocupações se referia ao setor de serviços. As áreas de cuidados de saúde, construção civil, gastronomia, agricultura e turismo dependem de estrangeiros para simplesmente poder existir.
Outro alerta se refere às consequências para o sistema que financia a generosa aposentadoria na Suíça. Sem trabalhadores para contribuir, o alerta é que as contas não fechariam. Berna insiste que os trabalhadores estrangeiros contribuem mais para o financiamento da previdência social do que recebem em benefícios.
Embora recebam mais benefícios do seguro-desemprego do que pagam em contribuições, contribuem significativamente mais para o Seguro de Velhice e Sobrevivência, o Seguro de Invalidez e a Compensação por Perda de Rendimentos (LEC) do que recebem em benefícios.
O governo ainda rejeita a tese de que a criminalidade tenha aumentado, um argumento da extrema direita. Para as autoridades, a integração tem ocorrido de forma adequada.
De acordo com as autoridades, o desempenho econômico per capita da Suíça aumentou 24% desde 2002, em grande parte graças à livre circulação de pessoas.
Para o governo, empresas e instituições públicas, como hospitais e casas de repouso, continuarão a depender de trabalhadores estrangeiros para sua mão de obra. Atualmente, o número de pessoas que se aposentam no país é maior do que o de pessoas que entram no mercado de trabalho.




