quando a entrega não produz sentido

quando a entrega não produz sentido
Publicado em 13/03/2026 às 16:54

Por Mauricio Carvalho*

A política brasileira atravessa um momento de disputa intensa, mas com pouca mudança real de posição. As pesquisas mais recentes indicam um cenário polarizado e com baixa capacidade de deslocamento eleitoral para 2026.

Na Datafolha divulgada agora em março, o presidente Lula aparece com 46% em um eventual segundo turno contra 43% do senador Flávio Bolsonaro, que herda praticamente todo o espólio eleitoral do pai, configurando empate técnico dentro da margem de erro.

O país permanece dividido na avaliação do governo e os cenários eleitorais continuam marcados por disputas apertadas.

Não se trata de um ambiente de colapso político, mas tampouco de expansão clara.

O traço mais consistente desse quadro é a estagnação. Outros levantamentos divulgados ao longo dos últimos meses apontam para a mesma direção: a pesquisa Quaest de fevereiro já indicava um eleitorado fortemente polarizado e a presença crescente do eleitor independente como variável decisiva.

No mesmo período, a Atlas/Bloomberg mostrava um cenário semelhante: o governo preserva uma base relevante, mas encontra dificuldade de ampliá-la. Em simulações de primeiro turno, Lula oscilava em torno dos 40%, enquanto o restante do eleitorado se distribuía entre candidaturas oposicionistas e indecisos.

A última Datafolha, portanto, não altera esse diagnóstico. Apenas o reforça. O governo continua competitivo, mas parece encontrar um limite perceptivo.

Esse ponto chama atenção porque ocorre em paralelo a um ciclo intenso de ação governamental. Programas avançam, políticas públicas são executadas e indicadores econômicos apresentam melhora.

Ainda assim, a percepção política não acompanha esse movimento com a mesma intensidade.
Recentemente, chamei atenção também para isso em outro ensaio, aqui mesmo no ICL.

Quando esse descompasso se instala, o problema deixa de ser apenas administrativo. Parece ser simbólico e, portanto, comunicacional.

Políticas públicas pertencem ao campo da ação concreta. Capital político pertence ao campo da interpretação. Se a ligação entre esses dois planos não é construída de forma consistente, as entregas administrativas permanecem como gestão, mas deixam de produzir deslocamento na percepção pública.

Governos não são avaliados por planilhas. São avaliados por significados, que não são os mesmos para todos os eleitores. Entre a entrega e o sentido que ela produz, existe sempre um espaço de mediação — e, como lembra a linguística, a ligação entre forma e sentido é arbitrária.

O eleitor não reage apenas ao que foi feito. Reage ao significado que se atribui ao que foi feito.
Uma política pública é um fato, mas o seu significado é sempre disputado.

É nesse espaço que a política se reorganiza. Resultados administrativos não se convertem imediatamente em capital político porque o ambiente público é permanentemente atravessado por narrativas concorrentes.

Quando o significado das ações de governo não é organizado com clareza, ele passa a ser preenchido pela própria dinâmica do conflito político.

O caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e mensagens atribuídas ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, tornou-se rapidamente um ponto de gravidade no noticiário.

Ainda que o desfecho jurídico permaneça em aberto, o episódio já opera no plano simbólico: reativa narrativas antigas sobre a relação entre poder econômico, sistema político e instituições. Não é o fato em si que reorganiza o debate; é o sentido que se fixa em torno dele.

Nesse ambiente, a disputa política deixa de ocorrer apenas no terreno das ações concretas. Ela passa a ocorrer, sobretudo, no terreno das interpretações.

A questão central talvez não seja o volume de comunicação, mas a capacidade de organizar o sentido das entregas. Transformar ação administrativa em valor percebido. Converter resultado de gestão em significado político vivo, mobilizador.

O símbolo antecede a adesão. Sem ele, a política pública permanece confinada ao plano técnico — e técnica, por si só, raramente mobiliza.

Se existe um impasse na percepção política atual, ele dificilmente será resolvido apenas com a repetição das entregas administrativas. O desafio está em construir a ponte simbólica entre aquilo que o governo faz e aquilo que o eleitor percebe.

Comunicar sem significado realiza apenas parte do trabalho. A outra — a decisiva — é significar.

*Maurício Carvalho é publicitário e estrategista de marketing político.