Por Mauro Ramos – Brasil de Fato
Si Na Dingzhu perdeu parte da visão aos dez anos porque não havia estrada. Nascido em Balagezong, vilarejo remoto nas montanhas de Shangri-la, na província de Yunnan, ele caminhou por quase uma semana para chegar à sede do condado em busca de tratamento para uma lesão nos olhos. Chegou tarde: o momento crítico havia passado e a visão não pôde ser completamente restaurada.
Foi então que ele decidiu sair de Bala, como é conhecida pelos moradores, e acabou fazendo fortuna trabalhando na província de Guangdong. Voltou ao vilarejo e gastou quase tudo o que havia acumulado. Em dez anos de trabalho, concluiu uma estrada de 59 quilômetros que pôs fim a um isolamento do vilarejo de cerca de 1.300 anos. Den Zing, guia local de Balagezong, reconstrói a trajetória.
“Nascido aqui em 1964, o senhor Si Na Dingzhu cresceu em uma época em que o vilarejo de Bala era sinônimo de pobreza, isolamento e atraso, mesmo para os padrões das aldeias mais remotas nas montanhas de Shangri-la”, relata Denzing. “Na longa caminhada de volta para casa, um pensamento se enraizou em sua mente jovem: e se um dia eu pudesse construir uma estrada até meu vilarejo? E se eu pudesse trazer o mundo exterior para o vilarejo de Bala?”.
Hoje, Balagezong recebe turistas nacionais e internacionais e passou a fazer parte do Patrimônio Mundial da Unesco “Três Rios Paralelos”, uma das áreas de maior biodiversidade do planeta, formada pelos cursos paralelos do Yangtze, do Mekong (ou Mecom) e do Saluém no sudoeste de Yunnan. Nesta edição, o Bem Viver, programa do Brasil de Fato, mostra a transformação da região, que combina a iniciativa do morador com as políticas do governo chinês implementadas nas últimas décadas, entre elas as de revitalização rural.
Ecoturismo e proteção ambiental
Em dezembro de 2009, um ano após a abertura da estrada, Balagezong recebeu o segundo nível mais alto do país para áreas de ecoturismo. A classificação exige padrões específicos de preservação ambiental e de gestão ecológica do turismo.
O processo se insere na fase conhecida como Socialismo com Características Chinesas na Nova Era, em que a erradicação da extrema pobreza e a revitalização do campo tornaram-se prioridades centrais do governo do Partido Comunista da China (PCCh). Em Balagezong, ecoturismo e revitalização rural foram articulados como estratégia complementar: a conservação ambiental como condição de sustentabilidade econômica para as comunidades locais.
Produção agrícola, antes desperdiçada, virou fonte de renda
“A abertura desta estrada transformou nossas vidas, não apenas para o vilarejo de Bala, mas para toda a região ao redor. Antes, mesmo que nossas maçãs fossem completamente orgânicas, incrivelmente frescas, entre as mais saudáveis que você poderia encontrar, elas não conseguiam sair do vilarejo”, afirma Pang Zhouma, moradora de Bala.
“Não tínhamos escolha a não ser dar para os porcos ou deixar apodrecer em casa. O mesmo acontecia com produtos silvestres preciosos, como cogumelos matsutake e ervas medicinais raras que crescem em abundância em nossas montanhas: tudo ficava preso aqui, sem ser visto nem vendido.”
O isolamento não era apenas econômico. “Até pessoas como eu, que sempre desejaram aprender e crescer, não podiam ir a lugar nenhum. A distância era grande demais, a viagem, difícil demais. Estávamos isolados, como sapos no fundo de um poço, sem saber nada do mundo além: nunca víamos as luzes da cidade, prédios modernos ou instalações avançadas. Mas tudo mudou com esta estrada”, reforça Pang.
Com a revitalização, sua renda passou a ser estável. Todo mês, ganha alguns milhares de yuans, algo em torno do equivalente a R$ 2 mil a R$ 4 mil. Com esse dinheiro, a família construiu uma nova casa. “Algo que nunca poderíamos ter imaginado antes, quando estávamos presos sem saída”, afirma a moradora.
Junção entre preservação e desenvolvimento local
A revitalização em Balagezong alcançou também a preservação do patrimônio imaterial. Den Zing conta que parte das antigas casas dos moradores foram renovadas como pousadas boutique. As duas moradias tradicionais mais bem conservadas do vilarejo foram transformadas em museu residencial popular, com a bandeira do Partido içada na fachada de uma delas.
“Ele oferece aos visitantes uma rara oportunidade de entrar e vivenciar de perto a vida cotidiana, os costumes e o ambiente de vida do povo Bala”, descreve Den zing. “Por meio desse espaço, os turistas podem ter uma compreensão mais profunda do patrimônio cultural do vilarejo e do modo de vida autêntico que persistiu aqui por séculos.”
A geração de renda alcançou aldeias vizinhas. Segundo Pang, moradores de outras comunidades encontraram trabalho em Balagezong sem exigências de escolaridade ou critérios excludentes. “Simplesmente nos dão uma oportunidade justa, muito semelhante a um programa direcionado de alívio à pobreza. Por meio do trabalho honesto, nossas condições de vida continuam melhorando.”
A cultura local, incluindo as canções tradicionais de velório e outros patrimônios imateriais, passou a ser compartilhada além das montanhas. Para Pang Zhuoma, o balanço ultrapassa o econômico: “Somos profundamente gratos, não apenas pela estrada em si, mas por tudo o que ela trouxe: conexão, dignidade, esperança e um futuro para as gerações que virão”.
E tem mais…
O Bem Viver faz também uma visita ao Centro Agroecológico Paulo Kageyama, em Jarinu (SP), onde a compostagem orgânica transforma resíduos em nutrientes para o solo.
Na culinária, a chef Gema Soto ensina uma receita de cupcake de milho com goiabada, em clima junino.
Além da força das cooperativas Central Veredas e da Copabase, em Minas Gerais.




