Sabesp é acionada no MP após negociações pra vender estação

Sabesp é acionada no MP após negociações pra vender estação
Publicado em 25/06/2026 às 20:05

A venda de um terreno de quase 3 mil metros quadrados no Jardim Paulista, uma das áreas mais valorizadas da capital São Paulo, motivou uma representação ao Ministério Público do estado, o MPSP, contra a Sabesp. O imóvel abriga a Estação Elevatória de Água Tratada (EEAT) Barão de Capanema, infraestrutura considerada estratégica para o abastecimento da região e do chamado ‘Espigão da Avenida Paulista’, conjunto de dezenas de hospitais da cidade.

A representação foi protocolada em 16 de junho de 2026 pelo Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), após ser revelado, em janeiro desse ano, o interesse de pelo menos dez incorporadoras no terreno. Na ocasião, a empresa Trisul confirmou ter apresentado uma proposta vinculante para aquisição do imóvel, enquanto a Sabesp informou que a negociação estava em fase final de aprovação interna e seguiria para análise da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp).

À época, a companhia também afirmou que a venda de ativos imobiliários faz parte de sua estratégia para gerar recursos destinados à universalização dos serviços e à modicidade tarifária.

Diante do cenário, o ONDAS pede a interrupção de qualquer negociação envolvendo o imóvel e a abertura de investigação sobre a alienação de estruturas ligadas à prestação do serviço público de abastecimento de água.

Segundo o texto, a área colocada à venda está localizada na esquina das ruas Barão de Capanema e Ministro Rocha Azevedo, no bairro do Jardim Paulista, próximo da Oscar Freire. O metro quadrado na região equivale a R$70 mil, com um terreno amplo e horizontal, o imóvel é considerado uma joia imobiliária em uma área totalmente verticalizada e nobre da cidade. A venda pode gerar cerca de R$ 215 milhões para os cofres da Sabesp.

De acordo com o Observatório, o problema não está apenas no valor do ativo, mas na função que ele desempenha para a segurança hídrica da capital. Para Amauri Pollachi, coordenador do ONDAS, a estação é essencial para assegurar o fornecimento de água a uma área que concentra dezenas de hospitais públicos e privados.

“A empresa colocou à venda esse imóvel de 3.000 m², com valor estimado em centenas de milhões de reais, sem considerar que a Elevatória é essencial para garantir o abastecimento de água para a região da Avenida Paulista, que engloba dezenas de grandes hospitais públicos e privados relevantes para o Brasil e a América Latina”, declarou.

Estrutura é considerada estratégica pela própria Sabesp

A principal argumentação da representação é que a venda contraria diretrizes do Plano Diretor de Abastecimento de Água da Região Metropolitana de São Paulo, elaborado pela própria Sabesp em 2020 e com projetos até 2045.

Segundo o documento, o plano classifica a recuperação da elevatória e de suas adutoras como uma obra essencial para ampliar a flexibilidade operacional e a conexão entre os sistemas Guarapiranga e Cantareira.

Reprodução do esquema de abastecimento da região, extraída do Relatório Síntese do Plano Diretor de Abastecimento de Água da RMSP, Edição 2020, destacando, na cor preta, o Conjunto de Adutoras que seriam abandonadas a partir do desfazimento irresponsável da EEAT, que a Sabesp pretende promover.

O relatório técnico citado pelo ONDAS destaca que a recuperação da estrutura representa “um grande aumento na segurança de atendimento” e constitui uma “importante conexão proposta entre os sistemas Guarapiranga e Cantareira”.

A estação entrou em operação em 1947 e teve sua capacidade ampliada na década de 1950. Embora esteja atualmente inoperante por conta de vazamentos em trechos das adutoras, a representação sustenta que existem tecnologias amplamente utilizadas para recuperação da infraestrutura sem necessidade de remoção das tubulações.

Durante a crise hídrica de 2014 e 2015, a reativação da Barão de Capanema chegou a integrar o conjunto de obras previstas para aumentar a transferência de água da Guarapiranga para a região da Avenida Paulista.

Segundo a organização, a estrutura poderia transportar até 2 mil litros de água potável por segundo e funciona como uma alternativa estratégica em períodos de escassez hídrica. Na avaliação da entidade, o agravamento das mudanças climáticas aumenta a necessidade de preservar sistemas de redundância capazes de garantir o abastecimento em situações de emergência.

“Poderia a Sabesp se desfazer dessa ‘joia’ — aqui, não sob o ponto de vista imobiliário, mas sim, sanitário, por ser infraestrutura essencial para a estabilidade e a continuidade dos serviços públicos de abastecimento de água para toda a região?”, questiona a representação.

O documento também critica o que chama de priorização de resultados financeiros em detrimento da segurança operacional do sistema. “A Sabesp, obcecada pela maximização de resultados financeiros, está abrindo mão de uma instalação operacional vital para a garantia de abastecimento de água para o coração da Cidade de São Paulo”, afirma o texto.

A organização também pede que a Sabesp seja orientada a realizar audiências públicas e ampliar o diálogo com municípios e comunidades potencialmente afetados por eventuais vendas de imóveis ligados à operação do sistema de abastecimento.

Procurados pela reportagem, a Sabesp, até o momento, não se manifestou sobre a representação. O espaço segue aberto para futuras declarações.