Trump eleva riscos para a economia global com guerra contra o Irã

Trump eleva riscos para a economia global com guerra contra o Irã
Publicado em 09/03/2026 às 17:45

Depois do tarifaço em 2025, o governo de Donald Trump voltou a provocar turbulência global ao abrir uma frente militar contra o Irã, em ação conjunta com Israel. Analistas já precificam que o conflito, iniciado há cerca de uma semana, pode desencadear uma série de efeitos negativos à economia mundial, incluindo aumento nos custos de transporte do comércio internacional, pressão inflacionária decorrente da alta do petróleo, elevação de juros em diferentes países e adiamento de investimentos.

Por outro lado, o cenário também traz oportunidades para alguns setores, como empresas petrolíferas e grandes companhias de transporte marítimo. Países exportadores de petróleo — caso do Brasil — tendem a sofrer menos impacto direto.

Entre as regiões mais vulneráveis está a Europa, que ampliou sua dependência de gás natural liquefeito (GNL) após interromper compras de energia russa depois da Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

As importações europeias de GNL cresceram cerca de 30% no ano passado, com grande parte do fornecimento vindo dos Estados Unidos. A escalada da guerra provocou forte reação no mercado: contratos futuros de gás natural na região chegaram a registrar alta próxima de 60% em uma semana, de acordo com dados da agência Bloomberg.

Além da dependência energética, a posição geográfica europeia a coloca próxima de rotas críticas para o comércio internacional, que passam a enfrentar riscos com o agravamento do conflito.

Instabilidade em corredores logísticos

A instabilidade atinge corredores logísticos decisivos para o comércio global. Entre eles estão o Canal de Suez, no Egito, e o Estreito de Ormuz, passagem fundamental para exportações energéticas do Golfo Pérsico.

Pelo Estreito de Ormuz circulam cerca de 20% do petróleo e do gás consumidos no mundo. Outras mercadorias estratégicas também dependem dessa rota, incluindo aproximadamente 25% dos fertilizantes globais, 35% dos produtos químicos e plásticos e parte relevante do comércio de grãos destinados ao Golfo.

Com o agravamento das tensões militares, essas rotas marítimas passaram a operar com restrições, enquanto milhares de voos foram cancelados em importantes hubs aéreos do Oriente Médio, como os aeroportos de Aeroporto Internacional de Dubai e Aeroporto Internacional Hamad, em Doha.

Frete mais caro e risco de gargalos logísticos

O impacto imediato já aparece no transporte marítimo. Grandes armadores internacionais começaram a aplicar sobretaxas relacionadas ao risco de guerra ou a suspender rotas na região.

Companhias como CMA CGM, Maersk e MSC Mediterranean Shipping Company anunciaram mudanças em suas operações e alertaram clientes para possível volatilidade nos preços do frete.

Empresas do setor têm buscado rotas alternativas, inclusive com transbordos em portos do Mediterrâneo e do Mar Vermelho. Ainda assim, as opções logísticas são limitadas, sobretudo com a paralisação parcial do transporte aéreo na região.

Analistas apontam que o cenário lembra o colapso logístico observado durante a pandemia de Covid-19, quando os custos de transporte internacional chegaram a quintuplicar.

Petróleo mais caro e pressão inflacionária

Outro canal de transmissão do impacto econômico é o mercado de energia. O barril do petróleo tipo Brent crude oil (óleo cru) superou a marca de US$ 120, refletindo o risco de interrupção na oferta global.

A alta do petróleo tende a espalhar inflação por diferentes economias, tanto diretamente — pelo aumento dos combustíveis — quanto indiretamente, ao encarecer o transporte de mercadorias e a produção industrial.

Estimativas de analistas indicam que um aumento de 10% no preço do petróleo pode elevar a inflação global entre 0,15 e 0,40 ponto percentual, o que pode levar bancos centrais a adotar políticas monetárias mais restritivas.

Banco Inter aponta efeito ambíguo no Brasil

Apesar do cenário global mais incerto, um estudo do Banco Inter aponta que o impacto sobre o Brasil pode ser parcialmente mitigado pela condição de exportador de petróleo.

A instituição aponta que a valorização do petróleo tende a atrair mais dólares ao país por meio das exportações, o que pode provocar valorização do real e reduzir pressões inflacionárias no curto prazo.

Nas simulações do banco, um choque de alta de 10% no petróleo teria efeito praticamente nulo sobre a inflação brasileira no primeiro mês. Após um ano, porém, o impacto acumulado poderia elevar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial, em cerca de 0,6 ponto percentual.

Um cenário de maior instabilidade global

Para analistas, a guerra com o Irã se soma a outras iniciativas do governo Trump e amplia a percepção de ruptura na ordem econômica internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.

O aumento de tensões geopolíticas, combinado com disputas comerciais e enfraquecimento de instituições multilaterais, eleva o grau de incerteza para investimentos e crescimento global.

Nesse ambiente, economias emergentes como o Brasil podem até encontrar oportunidades pontuais, especialmente no setor de energia, mas seguem expostas à volatilidade de um sistema internacional cada vez mais fragmentado.