A estátua da personagem Milena, da Turma da Mônica, apareceu com a cabeça separada do corpo no local onde foi instalada, em uma praça da região de Perus, na Zona Norte de São Paulo. Calma! Ela não foi vandalizada. Com problemas na instalação, se partiu quando uma pessoa encostou, mas a imagem com o corpo separado da cabeça percorreu os portais noticiosos e não foi à toa, pois não teria sido a primeira vez que algo semelhante ocorreria.
Todas as notícias que inundaram as redes sobre uma possível “decapitação” proposital da estátua, falam de um certo medo que sempre paira no ar, contam de um trauma coletivo e um estado de alerta permanente que é mais que compreensível porque não foi desta vez, mas foi em muitas outras. Estamos em um país que depreda terreiros, espanca religiosos e religiosas, envia policiais armados a uma escola do ensino fundamental por conta do desenho de uma menina de quatro anos, retratando uma figura de religião de matriz africana.
Uma personagem sonhada
O surgimento da personagem entre a criançada mais querida dos quadrinhos nacionais é um sonho antigo de boa parte dos que hoje são pais e mães, mas cresceram lendo as famosas revistas criadas por Maurício de Souza. O questionamento era simples. Como assim, em pleno século 21, em um país onde 56% da população se autodeclara negra, não existe uma figura ali que pudesse ser vista pelas meninas e meninos pretos ou pardos como alguém semelhante a eles e elas?
Milena então “nasceu” em 2017, ou seja, ainda é muito jovem na trupe e corria o ano de 2023, quando na Bienal do Livro do Rio de Janeiro a equipe da Maurício de Souza, na presença do Maurício em pessoa, me fez um convite para escrever um livro com uma história para a personagem.
Existem coisas que a gente nem imagina que pode sonhar. Nunca me passou pela cabeça que um dia eu poderia escrever para o estúdio daquele que é um dos criadores mais icônicos das infâncias brasileiras. A casa dos tradicionais Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, que há mais de seis décadas encantam a garotada. O lugar de criação das famosas estorinhas que estiveram entre as primeiras leituras de quase todo mundo no país. Comigo não foi diferente.
Escrever para a “Turma da Mônica” soou como algo encantador e assim que recebi o convite para o livro fui pesquisar Milena. Encontrei uma personagem muito bem construída. Curiosa, esperta, amiga, filha de um casal formado — o pai é publicitário e a mãe é veterinária —, tem uma irmã jovem, um irmão pequeno, avós e um gatinho de estimação.
Um sinal de alerta
Aqui chegamos ao motivo pelo qual não causou estranheza para muita gente a notícia de que a estátua pudesse ter sido vandalizada. Durante a pesquisa para criação do enredo do livro, toda a beleza da construção do universo da Milena, contrastava com o ódio que encontrei em alguns comentários, redes e fóruns sobre a nova integrante da Turma.
Uma má vontade com seu “jeito metido à besta”, com o seu protagonismo, com a sua criação. “Agora tudo tem que ser politicamente correto!”, reclamavam alguns. Não faltavam alguns xingamentos e deboches. Nada que eu, como menina vinda mais ou menos de uma mesma origem da personagem, não tenha vivido, não tenha ouvido.
Certo dia, em um evento literário, falando para a turma de alunos de uma periferia, um menino de uns sete ou oito anos me questionou sobre a família da Milena. A pergunta daquela criança me quebrou ao meio. Significou que ele não tinha um grupo familiar estruturado e, pior, duvidava que uma família como aquela existisse. Vi que minha resposta para ele acendeu uma pequena luz em seu olhar: “Ah, mas se você hoje tem oito anos, um dia terá 38 e, se quiser, pode pensar em construir uma família igual a dela!”.
Uma autoimagem digna, sonho e possibilidades de futuro. É do que se trata tudo isso.
Decidi não ignorar as hostilidades, mas fazer o que sempre faço quando me sinto provocada em lugares e coisas nas quais acredito: Dobrei a aposta. Escrevi com todo o carinho e alegria (é um livro para crianças entre 8 e 10 anos!) uma jornada mágica de viagem, busca de raízes e reencontro familiar entre pessoas que estavam se afastando por conta das “demandas” da vida. Uma declaração de amor a todas as “Milenas”, que um dia também fui.
Lançamos na Bienal do Rio de Janeiro de 2025, dois anos e meio depois do convite, “Milena e o enigma do pássaro antigo”, publicada pela editora Malê.
Aprendi escrevendo para Milena as mesmas coisas que aprendemos com todas as crianças que ainda mantém a inocência dos primeiros anos: O significado da sinceridade, solidariedade, o encanto e o fascínio com as pequenas coisas. Aprendi que se fazer criança, por vezes, é necessário.
Entendi que escrevi, no fundo, para a pequena Eliana que jamais cresceu com uma personagem como Milena para admirar, se orgulhar, se espelhar…, mas ao contrário, cresceu ouvindo fora de casa e na escola as mesmas ofensas que a personagem por vezes recebe nas redes, tantos anos depois da minha infância. Como eu teria crescido, se tivesse tido a chance de me enxergar assim desde cedo? Com menos sofrimentos, certamente. Quando os livros chegaram, chorei “feito criança”.
Meses depois, a empresa Maurício de Souza me convidou para uma visita aos estúdios, uma conversa com a equipe e para escrever uma das estorinhas da primeira revista exclusiva da personagem. Tudo uma belezura de respeito e leveza. Minha estória “Milena em Espelho, Espelho Meu”, encerra a edição número 01, ou seja, é uma publicação histórica. Uma honra. Coloquei uma na prateleira onde estão todos os meus livros, com uma cartinha dentro, para as crianças do futuro quando eu não estiver mais aqui. Tomara que dure!

Felizmente, está tudo bem e certo com a personagem Milena. Ela recebeu e recebe MUITO amor de centenas de milhares de crianças Brasil afora e é isso o que importa.
Esperemos que a estátua seja refeita, volte ao seu lugar e atraia uma ciranda de crianças de todas as cores, credos, jeitos e origens. Que os risos e a alegria a cerquem como também a todas as crianças brasileiras, que merecem crescer em segurança, com saúde, educação e paz.
Que assim seja!




