O Brasil pode sobreviver sem os EUA nas exportações?

O Brasil pode sobreviver sem os EUA nas exportações?
Publicado em 11/07/2025 às 8:49

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Defensor do multilateralismo, o presidente Lula (PT) afirmou na quinta-feira (10) que, se os Estados Unidos não quiserem comprar do Brasil, o governo vai procurar quem queira. De acordo com o presidente, a relação comercial com o EUA não é essencial para a sobrevivência do Brasil. “Vamos ter que proteger [o setor produtivo]. Vamos ter que procurar outros parceiros para comprar nossos produtos. O comércio entre Brasil e Estados Unidos tem apenas 1,7% do PIB [Produto Interno Bruto], não é essa coisa que a gente não consegue sobreviver sem os EUA”, disse Lula em entrevista à TV Record.

Com a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros anunciada por Donald Trump, empresários e o governo brasileiro buscam alternativas para minimizar os impactos e a China, principal parceiro comercial do Brasil, aparece como um potencial destino para esse redirecionamento.

No entanto, especialistas apontam que a China não é um substituto direto para o tipo de produto que o Brasil exporta para os EUA. As diferenças nas estruturas de demanda entre os dois países tornam difícil uma realocação rápida e eficiente.

As exportações do Brasil para os Estados Unidos são marcadas pela diversidade e por um alto grau de manufaturados e bens intermediários. Entre os principais itens estão aviões, autopeças, suco de laranja, café, aço semiacabado e produtos químicos.

Já a pauta de exportações para a China é altamente concentrada em commodities agrícolas e minerais. De acordo com dados do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), entre janeiro e junho deste ano:

  • Soja respondeu por 40% das exportações para a China;
  • Petróleo bruto, por 19%;
  • Minério de ferro, por 17%.

Essa estrutura cria um descompasso: produtos brasileiros afetados pelas tarifas norte-americanas não têm demanda proporcional na China.

Potenciais exceções do Brasil para a China: commodities com demanda cruzada

Embora a substituição não seja generalizada, alguns produtos já são vendidos para os dois mercados e poderiam ter seus embarques redirecionados. Entre eles, estão:

  • Petróleo e derivados: já possuem forte presença na pauta para a China.
  • Carne bovina: com mercado ativo tanto nos EUA quanto na China.
  • Minério de ferro: é o maior item exportado para a China, mas enfrenta excesso de oferta global, o que pressiona os preços.

Por outro lado, autopeças e componentes industriais, poderiam ter dificuldades de encontrar espaço na China. Entre eles, estão:

  • Aeronaves e equipamentos de aviação: a Embraer exporta cerca de 60% de sua produção para a América do Norte.
  • Suco de laranja: fortemente concentrado no mercado americano, que responde por 41,7% das exportações do setor.

Esses segmentos têm pouca ou nenhuma inserção no mercado chinês. A CitrusBR, entidade que representa exportadores de suco cítrico, afirma que a Europa já é o principal mercado complementar (52%) e que não há capacidade de absorção adicional significativa no curto prazo.

Outro aspecto são barreiras regulatórias e logísticas Mesmo em casos em que há potencial técnico para redirecionar exportações, o processo enfrenta obstáculos, tais como:

  • Exigências sanitárias e fitossanitárias da China são diferentes das americanas.
  • Acordos comerciais e cotas de importação podem restringir volumes.
  • Cadeias logísticas e contratos de longo prazo já estabelecidos com os EUA tornam a transição mais lenta e custosa.

Além disso, os consumidores chineses têm preferências distintas em relação aos produtos industrializados, o que exige adaptação de marketing, embalagens e certificações — uma mudança que leva tempo e investimento.

Papel geopolítico da China: oportunidade ou limitação?

Apesar das limitações comerciais, a dimensão política da relação Brasil-China pode ganhar relevância diante do agravamento da tensão com os EUA. Para especialistas, a China pode usar sua capacidade de compra como ferramenta diplomática, reforçando o papel do Brasil como parceiro estratégico na América Latina.

Contudo, não há muitas alternativas viáveis no curto prazo para setores industriais brasileiros. A resposta do governo brasileiro — que pode incluir retaliação tarifária — e a evolução das negociações diplomáticas com os EUA serão determinantes para mitigar os efeitos econômicos da medida.

Efeitos políticos: risco de ‘tiro pela culatra’

O uso de tarifas por Trump já provocou reações políticas opostas em outros países. No Canadá, as medidas geraram um efeito de coesão nacional, e o candidato anti-Trump Mark Carney venceu a eleição depois de uma virada histórica.

No México, a aprovação da presidente Claudia Sheinbaum chegou a 80% em meio ao embate com os EUA. E na Europa, Macron viu sua popularidade crescer após confrontar as ações unilaterais de Trump.

Ian Bremmer, da consultoria Eurasia, disse ao g1 que a ofensiva de Trump pode fortalecer politicamente Lula e isolar Bolsonaro. “Acredito que o tiro vai sair pela culatra”, afirmou. “É um grande erro em praticamente todos os níveis.”

Uma nova pesquisa da AtlasIntel, divulgada no último dia 8, aponta que a aprovação de Lula experimentou uma recuperação significativa em junho, atingindo seu maior patamar do ano. A aprovação subiu cerca de 2% em relação a maio, enquanto a desaprovação caiu cerca de 2%. O levantamento mostra que 47,3% entrevistados aprovam o presidente, enquanto 51,8% desaprovam. Não sabe fica em 0,9%.