Por Anna Virginia Balloussier
(Folhapress) – O Legendários é apropriado para um homem de Deus?
É o que a IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) vai decidir no fim deste mês: se declara oficialmente incompatível com sua doutrina esse programa de imersão cristã para homens que, por meio de desafios de sobrevivência na selva e pregações, busca resgatar a masculinidade e o papel de provedor pautados na Bíblia.
Esse é um dos temas em pauta na reunião quadrienal do Supremo Concílio, instância máxima da denominação. O encontro começa no próximo domingo (26), com a expectativa de atrair a Manaus mais de 1.600 representantes de 404 presbitérios espalhados pelo país.
A Folha teve acesso a um documento formulado no sínodo (espécie de assembleia da igreja) de Tocantins. Ele recomenda que pastores, presbíteros, diáconos e demais membros não participem nem promovam o Legendários.
O movimento, segundo esse grupo, está em desacordo com a tradição reformada, ligada às igrejas protestantes históricas, como a presbiteriana e a metodista. O problema seria recorrer a metodologias típicas de coaching, como técnicas de alto impacto emocional que, na avaliação da comissão responsável pelo parecer, acabam relativizando a suficiência das Escrituras e da obra de Jesus Cristo.
Caso seja aprovado, o texto servirá como orientação oficial para toda a IPB. Também abrirá caminho para que conselhos regionais analisem, caso a caso, a situação daqueles que insistirem em acompanhar o Legendários. A ideia é exercer “vigilância pastoral” e, se necessário, “orientar, em amor, os irmãos que tenham aderido a tais movimentos”.
O Legendários é um projeto cristão voltado exclusivamente para homens, idealizado na Guatemala e trazido ao Brasil em 2018 pelo pastor Ricardo Bernardes. A proposta é resgatar o que define como a “configuração bíblica original” e o “instinto caçador” masculino diante de uma suposta omissão dos homens na sociedade atual.
Críticos veem na atividade uma autoafirmação viril baseada em discursos machistas e na teologia do coaching. O movimento defende que essas provações são necessárias para forjar homens provedores e protetores para suas famílias e igrejas. Os empresários e influenciadores Pablo Marçal, Thiago Nigro (o Primo Rico) e o evangelista Deive Leonardo são alguns dos participantes de edições passadas.
O parecer presbiteriano contrário ao Legendários questiona o uso de ferramentas associadas ao universo corporativo, como técnicas motivacionais e estratégias de marketing. Entre os exemplos de inadequação estão gritos de guerra, camisetas padronizadas e numeração de membros, “referindo-se, em alguns casos, ao Senhor Jesus de forma inadequada como o ‘Legendário 001’”. Isso configuraria “nítido desvio” do Evangelho, “transformando a piedade em um produto de consumo grupal e performático”.
O documento também afirma que práticas como privação de alimento, desgaste físico intenso e pressão psicológica podem induzir estados emocionais interpretados como experiências espirituais. Outra preocupação: o programa favorecer a divisão entre “legendários” e aqueles que não participaram dos retiros, enfraquecendo a unidade da igreja local e a autoridade de seus pastores e conselhos.
O Legendários, de acordo com esse escrutínio, possui traços associados ao neopentecostalismo, sendo inconciliável a tradição histórica do presbiterianismo.
A Folha procurou lideranças da IPB, que preferiram não comentar antes da deliberação do Supremo Concílio.
Em nota enviada ao jornal, Joshua Catalan, vice-presidente de Essência e Projetos Especiais do Legendários, diz respeitar “as diferentes denominações cristãs e suas respectivas decisões”, ressaltando que “a fome, a sede, a angústia e a depressão não têm religião”.
Ele dimensiona o alcance da organização, presente em 24 países, com mais de 220 mil participantes. “Seguimos focados em ações que contribuem para comunidades mais fortes, solidárias e com o bem comum”, afirma Catalan, que se apresenta como “Legendário nº 8”.
Nem todos os líderes ligados ao universo reformado fazem uma leitura tão crítica do movimento. O pastor Hernandes Dias Lopes, referência presbiteriana, disse num canal digital que não vê problema nos desafios físicos promovidos pelo Legendários, desde que não sejam revestidos de misticismo nem substituam a centralidade da igreja.
Dias contou que um de seus filhos inclusive foi a uma edição do retiro. “O que ele me compartilhou foi exatamente isso: a experiência em si não tem nada de místico, é apenas para você conhecer os seus limites, e conhecendo os seus limites a pergunta é: até que ponto você tá pronto a se sacrificar, a se esforçar, a ir um pouco mais além, andar uma segunda milha em favor do seu cônjuge e filhos?”




