Por Cleber Lourenço
O perito da Polícia Federal João Cláudio Nabas, alvo da 7ª fase da Operação Compliance Zero por suspeita de vazamento de informações sigilosas do caso Banco Master, procurou uma delegada que atuava diretamente nas investigações e afirmou manter uma relação antiga com a jornalista Malu Gaspar, do O Globo.
Segundo apuração do ICL Notícias, a abordagem ocorreu inicialmente de forma presencial e, dias depois, foi retomada por mensagens enviadas à delegada. Durante os contatos, Nabas dizia ser fonte da colunista havia anos e afirmava que costumava repassar informações à jornalista. Em uma das conversas, também sugeriu que a delegada poderia compartilhar informações relacionadas à investigação.
A delegada comunicou imediatamente o episódio aos superiores e apresentou as mensagens recebidas. O relato passou a integrar os elementos analisados internamente e reforçou suspeitas que já começavam a surgir em torno da atuação do servidor, contribuindo para o aprofundamento da apuração que mais tarde resultaria na operação autorizada pelo ministro André Mendonça, relator do caso Banco Master, no Supremo Tribunal Federal (STF).
O episódio ajuda a explicar um dos bastidores da investigação revelada nesta quinta-feira (3), quando o Estadão publicou que a Polícia Federal apura a atuação de Nabas no suposto vazamento de documentos extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. Entre os materiais analisados estão arquivos identificados como “Moraes” e “Toffoli”, produzidos a partir do conteúdo apreendido durante a investigação.
Reforço das suspeitas
A reportagem do Estadão mostrou que a Polícia Federal passou a investigar a origem de documentos que chegaram à imprensa. Nos bastidores, porém, a suspeita sobre Nabas já vinha sendo alimentada por outros elementos. A conversa com a delegada tornou-se uma das primeiras ocorrências que despertaram preocupação entre os investigadores.
Depois desse episódio, a investigação avançou sobre a atuação do perito. Foram analisados registros de acesso a sistemas da Polícia Federal, históricos de consultas e os dispositivos eletrônicos de Nabas. O conjunto desses elementos teria consolidado os indícios que embasaram a operação deflagrada nesta semana.
Nabas não era um servidor periférico da corporação. Com cerca de duas décadas de carreira na Polícia Federal, construiu trajetória na área de perícia em crimes financeiros e previdência complementar. Em seus perfis profissionais, apresenta-se como professor de cursos voltados à investigação de fraudes financeiras e de investimentos.
Sua atuação profissional dialoga diretamente com um dos principais eixos da Operação Compliance Zero. Em 2023, concluiu mestrado na Universidade de Brasília (UnB) com uma dissertação dedicada à investigação de fraudes em fundos de investimento ligados aos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), tema que guarda relação com uma das linhas de investigação envolvendo o Banco Master.
Histórico e atuação profissional
Uma reportagem da Revista Fórum também mostrou que o perito compartilhava, em suas redes sociais, publicações de viés bolsonarista, chegando a compartilhar posts do ex-juiz e hoje senador Sergio Moro (União Brasil-PR) e do deputado federal Marcel Van Hattem (Novo-RS), um dos principais nomes da oposição ao governo Lula.
Segundo a revista, uma das postagens reproduzidas por Nabas defendia Sergio Moro e criticava a revisão de condenações da Operação Lava Jato. Em outra, o perito compartilhava conteúdo de Van Hattem com ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A reportagem também destaca que Nabas apoiou a candidatura do deputado à presidência da Câmara.
Apesar do histórico de manifestações públicas, até o momento a investigação conduzida pela Polícia Federal não atribui motivação político-partidária à conduta investigada. O foco da apuração permanece na origem do vazamento de informações sigilosas relacionadas ao caso Banco Master e na eventual utilização indevida de documentos extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro.
A operação que teve Nabas como alvo foi autorizada pelo ministro André Mendonça. Na decisão, o magistrado ressaltou que as medidas não representam qualquer direcionamento investigativo contra jornalistas ou veículos de comunicação e preservam tanto a liberdade de imprensa quanto o sigilo da fonte. O objetivo das diligências, segundo o despacho, é esclarecer a origem do vazamento e preservar a integridade da investigação.
Nos bastidores do caso, investigadores avaliam que o maior risco não é a divulgação de informações de interesse público pela imprensa, mas a circulação irregular de documentos sigilosos ainda durante a fase investigativa. O receio é que materiais em análise cheguem antecipadamente a investigados, comprometam diligências futuras ou alimentem questionamentos sobre a cadeia de custódia das provas.
A preocupação ganhou ainda mais relevância porque a Operação Compliance Zero permanece em andamento e reúne diversas frentes investigativas envolvendo movimentações financeiras, fundos de investimento, relações empresariais e possíveis ramificações políticas do caso Banco Master.
A reportagem optou por preservar a identidade da delegada que recebeu a abordagem de Nabas em razão de sua atuação na investigação.




